o conforto das coisas controláveis sempre irradia e pulula nas horas de aperto. E foi assim que descobri embaixo da minha cama uma portinhola de quase meio metro. Medindo-a, vi que mal podia cruzá-la mas mesmo assim me aventurei…
lá embaixo, outro meio metro depois, miniaturas de mim perambulavam freneticamente numa espécie de fluxo orquestrado, uma exata réplica das descrições orwelianas: painéis, controles, pads, nobs, câmeras, pranchetas, um processo em meio a outro…tudo rigidamente controlado pelos meus mini-eus…
alheios a minha presença seguiram seus cálculos e métricas, ordens, requisições, autorizações… uns andavam em miniaturas de patinetes numa faixa delimitada pro veículo com uma pressa de mil anos, outros apenas circulavam por entre seus postos de trabalhos - massas cinzentas de dados, memórias e registros acumulados e trancafiados dentro do que pareciam ser aqueles cubos de rubik….
operários agitados tentavam freneticamente dar ordem a profusão de cores primárias que operavam…sem descanso, apenas mastigando o nada para manter a hiperatividade dos sentidos, percebiam estar longes de chegarem a uma conclusão… quase de propósito…parecia que faziam de tudo para evitá-las: gerentes de problemas, prezavam pela não resolução dos mesmos por medo de uma súbita queda na demanda de trabalho.
aos pares, saiam para fumar - isso explica o cheiro defumado que impregna o meu quarto durante a minha ausência. E lá trocavam impressões sobre as rotinas manipuladas. Opiniões fora do padrão eram tidas como subversão, reprimidas na mais dura instância. Contudo, hora ou outra, por vezes mais imperceptíveis que outras, naturalmente deixavam-se questionar sobre a objetividade pragmática de seu mundo, de onde vinham, e por que tudo tinha de ser assim. Inflexões que eram identificadas por uma espécie de sensor óptico e textual, denunciadas quase que imediatamente para os altos controles do lugar.
Permaneci ali, vendo minhas casualidades serem computadas e analisadas, e minhas expectativas domesticadas. E senti um ar cômodo invadindo minhas narinas. Um aroma nostálgico, contente e preguiçoso…inebriante. Chapado, deixe-me crer que tudo isso era normal; uma vida circunscrita as suas limitações, sem maiores percalços, sem maiores surpresas. E assim fui trabalhar.
Volto, algumas horas depois, numa ressaca sensorial de merda. Sentindo o peso do igual, resoluto em buscar a diferença e a vida, abro a porta do quarto.
…
o cheiro defumado me absorveu.